Estudando longe de casa (Parte I)

A semana de inscrições no SiSU é uma das mais tensas e intensas na vida daqueles que dependem da nota no ENEM para iniciar o Ensino Superior. As notas de corte sobem todos os dias, novas inscrições são feitas a todo o momento e você está ali, com os dedos cruzados torcendo para que tudo dê certo. Essa vaga tem que ser minha, você pensa. Aqueles que precisam fazer o vestibular também passam pela mesma ansiedade. As unhas vão embora, o coração bate mais rápido na espera do resultado e a expectativa de encontrar o próprio nome na lista dos aprovados é enorme.

Eu não tenho dúvidas de que muitos vão conseguir. Dependendo do curso e da universidade desejada, vão até precisar arrumar as malas e seguir para outra cidade – e até mesmo para outro estado! – para conseguir realizar o sonho de se tornarem bons profissionais no futuro. Mas como é sair de casa para estudar? Quais as dificuldades e quais as precauções? O Agora v4i pensou nisso e convidou a Beatriz Braccialle, o Hendrick Gramasco e o Ronaldo Cruz para contar um pouquinho sobre a experiência que eles adquiriram quando foram aprovados em uma faculdade longe do lugar onde viviam.

entrevistados

A Beatriz (20) deixou Auriflama (SP), comprou as passagens para Maringá e foi cursar Letras na Universidade Estadual de Maringá (UEM). Hendrick (19) se despediu de Olímpia (SP) e seguiu para São Carlos para iniciar sua caminhada em Medicina, na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e o Ronaldo (20) saiu de Cachoeiro de Itapemirim (ES) inicialmente para mergulhar no Design Gráfico na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), mas hoje cursa Música na Pontífica Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), tudo em Curitiba.

Agora que já sabemos um pouquinho sobre eles, vamos conferir a primeira parte da entrevista com o trio?

vestibular

Tudo começou quando vocês ainda estavam cursando o Ensino Médio. Como vocês se prepararam para o vestibular/ENEM? Como era a rotina de estudos?

Beatriz: Quando eu ainda estudava na escola pública, eu não me importava muito com os estudos. Depois que fui pra escola particular (2º e 3º anos do ensino médio) eu passei a me importar mais, pois não era barato pra minha mãe pagar a escola. Então todo dia eu estudava a matéria dada. E na quinta-feira, além de estudar as matérias que eu tinha naquele dia, eu revisava a matéria da prova que teria na sexta-feira, toda sexta-feira eu tinha duas provas.

Hendrick: Tudo começou lá em 2011, quando eu estava no 2º ano do ensino médio… Naquele ano, resolvi me inscrever, como treineiro, para o ENEM e para o vestibular da FUVEST. Depois de fazer essas provas, decidi que não estava me preparando o suficiente para o vestibular, então me inscrevi e prestei uma prova para o concurso de bolsas do único cursinho da cidade onde eu moro (ou morava?). Consegui a bolsa e me matriculei no cursinho. Minha decisão foi reforçada depois que fiz a 2ª fase da FUVEST, ainda como treineiro. Em 2012, meu ano “oficial” de vestibulando, fazia o 3º ano do ensino médio numa das escolas públicas mais tradicionais da minha cidade pela manhã, estudava por minha conta durante a tarde e ia para o cursinho noturno.

Ronaldo: Pouco antes das provas de vestibular, sempre cai o desespero de rotina, rs. Mas de estudos mesmo, eu só estudava junto com a escola, mas aconteceu tudo tão rápido! Eu não esperava pela faculdade ainda, faltava mais um ano pra finalizar meu ensino médio e de repente eu já estava de malas prontas pra Curitiba!

Terceiro ano chegou e tava mesmo na hora de escolher qual seria o rumo que a vida tomaria depois de concluir o ensino regular. Vocês ainda estavam em dúvida quanto ao curso que fariam no ensino superior? Como foi o momento em que vocês perceberam que era Letras/Medicina/Design Gráfico que vocês queriam?

Beatriz: Pra ser completamente sincera, eu não lembro como surgiu na minha cabeça o curso de Letras/Inglês. Acho que alguém comentou sobre esse curso e eu gostei do que falaram, então falei que ia prestar esse curso na UNESP e na UEM. Às vezes eu pensava se era isso mesmo o que eu queria pra minha vida, mas tirando inglês, tinha pouca matéria que eu realmente sabia na escola. Eu era boa em História, mas nunca quis dar aula. Então acabei optando pelo curso que faço hoje porque não tenho só a opção de dar aula de inglês, mas sim de ser Tradutora, o que realmente quero.

Hendrick: Na verdade, eu nunca tive dúvidas. Nem sei explicar como e quando escolhi Medicina, só escolhi. Claro que eu sempre pesquisava sobre outros cursos, mas nunca me interessei por outro. Eu nunca cheguei a ter uma 2ª opção, um “plano B”. E não me arrependo!

Ronaldo: Não tem coisa pior do que a pressão de escolher uma carreira pra levar pro resto da vida! Até hoje às vezes me dá vontade de fazer outras faculdades. Pro Design Gráfico, eu conheci algumas pessoas que já cursavam e simplesmente me apaixonei pela área… Pensei: “por que não?”

Quais dicas vocês dão para aqueles que estão se preparando para o vestibular/ENEM e aqueles que ainda não decidiram qual curso vão fazer?

Beatriz: Estudem muito! É bem concorrido. Não precisa se matar de estudar, mas se você se dedicar bastante, consegue passar no vestibular!

Hendrick: Para aqueles que ainda têm dúvidas, acho que o melhor a se fazer é pesquisar e entrar em contato com o máximo de áreas/cursos possíveis. Um bom lugar para se fazer isso são os eventos que as próprias universidades realizam. Aqui na UFSCar, temos o “Universidade Aberta”. São dois dias em que a universidade recebe alunos dos ensino fundamental e médio para apresentar a eles o campus, os cursos etc. Assim, os futuros universitários têm a chance de conversar com alunos dos cursos pelos quais têm interesse, assistir palestras que apresentam esses cursos, conhecer os departamentos…

Ronaldo: Sobre o vestibular/ENEM: estudem! É só através dos estudos que podemos chegar a qualquer lugar que queiramos. E sem nervosismo, é tranquilo se você tiver controle. Sobre o curso: eu vejo as coisas um pouco diferentes. Já trabalhei em áreas que não gosto e sei como é ruim. Hoje eu faço um curso que eu gosto de verdade, independente do que qualquer outra pessoa vá pensar ou dizer. Pra mim, o que dá futuro é ser feliz com o que faz.

familia

Vocês tiveram aquele clique de que a hora de sair de casa para estudar estava se aproximando. Quando você viu que era a hora de expor essa vontade para a família e como eles receberam a sua decisão?

Beatriz: Meus pais aceitaram muito bem a decisão, não tive problema pra aceitarem nem o curso, nem a faculdade. Disseram que a escolha era minha, e respeitaram a que tomei.

Hendrick: A partir do momento em que escolhi meu curso, minha família já sabia que eu precisaria sair de casa. Eles tiveram bastante tempo para se acostumar com a ideia!

Ronaldo: Eu fui bem direto. Decidi o que queria fazer e onde queria fazer, mas não cheguei impondo nada. Conversei e deixei claro o que eu queria. Depois de um tempo conversando e avaliando, eles acabaram decidindo que iriam me ajudar pro que fosse, mesmo que meu sonho fosse morar tão longe deles.

Finalmente o resultado dos vestibulares foram divulgados e seus nomes estavam lá, lindamente estampados na lista de aprovados. Mas, né, em nenhum dos casos foi na cidade onde vocês moravam. Como a família reagiu quando perceberam que vocês estavam mesmo determinados a seguirem para outra cidade (até para outro estado!)?

Beatriz: Minha mãe perguntou “Você quer ir? ” E eu disse “Quero”. Meus pais então arrumaram um lugar pra eu ficar em Maringá e lá estou até hoje. Em alguns momentos eu quis vir embora, pensei várias vezes em desistir, mas disse que não ia me render e continuo na luta.

Hendrick: Acho que a primeira frase que minha mãe disse foi: “Bem, pelo menos não é tão longe.”. Claro que todos quase surtaram quando passei numa faculdade de outro estado, mas sempre apoiaram minhas decisões! E acabei escolhendo pela faculdade mais perto, no final das contas.

Ronaldo: Eu achei que mamãe fosse surtar! Tive medo da reação dela, mas com meu pai eu já estava mais tranquilo. Acabando que inverteu tudo, papai surtou dizendo que eu tava enlouquecendo e mamãe me deu todo o apoio do mundo! No fim deu tudo certo, ele se acalmou haha.

Vocês já estão há mais de dois anos fora de casa!! Com que frequência visitam a família? Como é lidar com a saudade?

Beatriz: Minha cidade natal fica a cerca de 400km de Maringá, e é em outro estado, em São Paulo, então eu vou pra casa quando é feriado. Se depender do horário de ônibus, to ferrada! Tenho que pegar um às 22h em Maringá, que chega em Araçatuba por volta das 5h da manhã e ainda preciso que minha mãe ou meu pai vá me buscar pra irmos pra Auriflama. Acabo por chegar em casa às 6h da manhã, se o ônibus atrasar… ai ai. Às vezes arrumo carona, então fica mais fácil ir embora. Mas mesmo assim, uma vez ao mês geralmente estou em casa. Acho que o tempo que fiquei mais sem ver meus pais foram dois meses e meio, a faculdade e o estágio apertaram e não teve como ir. Lidar com a saudade não é fácil, ainda mais meu caso: sempre fui muito apegada à família. Tios, tias, avós, avô, primos, primas… foi bem difícil sair de casa, mas nós temos que construir a nossa vida, ir atrás de realizar nossos sonhos. Então levantei a cabeça e fui à luta. E sempre que penso em desistir, lembro de quão difícil foi pra chegar onde estou e quanto meus pais lutaram pra me sustentar.

Hendrick: No primeiro ano de faculdade, eu voltava para casa (pelo menos) duas vezes por mês. Depois, acabei reduzindo para uma vez ao mês… E, agora, nem tenho uma “rotina fixa”. Volto quando posso. E por morar a 2h da minha família, eles também me visitam com certa frequência. Não tanto quanto antes, mas visitam. Quanto a saudade, a internet é um bom conforto. Falo todos os dias com meus pais e minha irmã. Nos falamos por telefone quase todos os dias também, nem que seja só para falar um “bom dia” pela manhã.

Ronaldo: Pior coisa! Eu nunca pensei que fosse TÃO difícil! Quando dá, eu os visito de 6 em 6 meses, mas às vezes nem isso. Hoje sinto falta até das brigas com meu pai. A consciência pesa pra várias coisas, tipo discussões desnecessárias do passado. Agora mesmo eu to respondendo as perguntas enquanto meus pais me levam pro aeroporto. Dói demais não saber qual vai ser a próxima vez que vou poder abraçá-los.

Vamos dar algumas dicas nesse caso também? Quais vocês dariam para o pessoal que sente medo que a família não aceite? E caso não aceitem mesmo, como eles poderiam lidar com isso?

Beatriz: Eu realmente não sei. Eu acho que só devemos opinar sobre um caso quando passamos por aquela experiência, e eu não tive falta de aceitação na minha família. Meus pais sempre me apoiaram. É muito difícil conversar com pessoas que têm opiniões diferentes das nossas e opiniões divergentes temos que saber aceitar porque cada um tem o direito de pensar o que quiser. Acho que o que podemos tentar fazer é defender nosso ponto de vista e tentar mudar, pacientemente, a opinião dos nossos familiares.

Hendrick: Por mais clichê que isso pareça, acho que conversar é a melhor saída. Tente entender os motivos deles e exponha os seus. Tente mostrar como isso será importante para você. E se não funcionar… Bem, acho que isso significa que você terá mais um ano para tentar convencê-los a mudar de ideia, certo?

Ronaldo: É complicado, cada família tem uma história diferente. Meus pais aceitaram tudo, mas nem sempre a gente pode contar com o apoio dos pais pra fazer algo pela paixão. Os nossos pais querem sempre o nosso melhor, então a melhor dica é tentar entender o que eles querem, ver o motivo e mostrar pra eles que esse não é seu objetivo e você precisa escolher algo que te fará feliz de alguma forma.

***

E esse foi o início da série “Estudando longe de casa“, pessoal! Resolvi dividir em três partes, ou então o post ficaria ainda mais longo. Aguardem pela próxima parte, onde o trio conta sobre como foi a adaptação na nova casa e falam um pouco sobre as cidades em que eles estão morando agora.

Beatriz, Hendrick, Ronaldo: muito obrigada por terem aceitado o convite e por toda a paciência ❤

assinatura Agora v4i

Anúncios

4 comentários sobre “Estudando longe de casa (Parte I)

  1. Mto boa a ideia, o assunto eh bem interessante e involve bastante insegurança tanto por parte da pessoa quanto por parte dos pais
    Quando eu disse q queria estudar em outra cidade, meus pais ficaram bem tensos com a ideia, por mais q eles tenham dito q iam me apoiar. Mas acabou nao dando certo e fiquei por aki mesmo xD

    1. Obrigada, Joãozito!

      Nós esperamos ajudar de alguma forma aqueles que querem estudar fora, porque ô momento louco esse, hein? E não deve ser nada fácil pros pais, né? @__@

  2. Amei a ideia e amo esse tipo de post. Parabéns pela ideia e os depoimentos são realmente inspiradores e encorajadores! Virei ver os outros posts com certeza até porque ano que vem é minha vez de ir pra longe dos meus pais :/

    Beijo enorme!

Comente <3

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s