16 on 16: Quebra da rotina

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Amanhecia quando Evangeline desembarcou na cidade onde seus avós moravam. Tratando-se de tamanho, aquela era a terceira maior do estado, mas isso não tinha um significado tão especial assim: continuava sendo uma mera cidade de interior. Sei que Evangeline não gostava de lá. Achava tudo pequeno, abafado, os comércios fechavam tão rápido quanto abriam, fazia um calor que colocava a resistência humana à prova e os mosquitos faziam a festa todas as noites, mas o que realmente a deixava com raiva do lugar eram as pessoas que ali viviam.

Sabe como é cidade do interior, não é?” comentou para Paola no dia em que decidiu contar para a antiga amiga a sua história com a terrinha, isso há muitos anos. “Todo mundo se conhece, todo mundo sabe da vida de todo mundo… todo mundo fala sobre a vida de todo mundo. Isso me irrita.

Mas naquela manhã nublada eu não senti o desagrado emanar da aura de Evangeline. Tudo o que enxergava era uma garota com as feições enrugadas pela noite mal dormida, uma das consequências causadas pelo sacolejar incessante do ônibus. Percebia seu cansaço, sua vontade por um banho quente, seu anseio por uma cama confortável e, principalmente, percebi a alegria que despertou em seu coração quando seus olhos caíram no casal de idosos que vieram buscá-la na rodoviária às seis e meia da manhã.

Durante todo o trajeto de carro até a casa dos avós – que não durou mais do que sete minutos, devido à pouca distância e a falta de trânsito entre um ponto e outro -, Evangeline foi contando algumas novidades mas, mais do que falar, ela também ouviu. Ainda que o dia-a-dia de Eulália fosse sempre o mesmo, a velha senhora sempre tinha algo novo para dizer. Prestei atenção na postura da garota de dezessete anos. Seu olhar não estava perdido nas ruas de paralelepipedo enquanto Eulália falava a respeito da vizinha, dona Ingrid, que torceu o tornozelo enquanto ia à feira. Nada disso. Os olhos de Evangeline estavam focados nas costas do banco do carona, as sobrancelhas arqueadas a cada fato inusitado contido nas palavras da avó. Ela estava prestando atenção.

Não foi apenas no carro que isso aconteceu, notei. Evangeline e Adalto (e, bom, eu por consequência) escutaram os monólogos de Eulália durante o café-da-manhã, durante o programa da Ana Maria Braga, Bem Estar, Encontro com Fátima Bernardes e durante o almoço também. A folga veio somente depois da segunda refeição do dia, quando o casal reservou duas horas do dia para tirar seu cochilo juntos, no conforto de um quarto com ar condicionado. Se a garota enfim teve tempo para descansar? Não. Os dias naquela cidade seguiam uma rotina e ela sabia que quando os avós iam dormir após o almoço, a prima, Diana, vinha para “fazer uma boquinha” no intervalo de seu trabalho.

Dito e feito. No badalar das 13h30, a mais velha adentrou a residência dos avós sem cerimônia. Tinha a chave, afinal. Surpreendeu-se, porém, ao encontrar Evangeline deitada no sofá assistindo ao programa Video Show. “Oh, então você veio mesmo“, comentou, medindo-a de cima a baixo. “Tá faltando dinheiro, é?“, provocou. Talvez Evangeline não tenha percebido, mas eu quase pude perceber uma gota de veneno pingar dos lábios da recém-chegada. Não devo julgar Diana por ser quem ela é: rude, irônica, inconveniente, interesseira e desprezível. Eu mesma possuía os mesmos defeitos quando a vida pulsava em minhas veias, então seria um belo ato de hipocrisia julgá-la, mas… quem disse que eu também não fui uma hipócrita em vida? Por que seria diferente agora, não? Assim: sinto nojo daquela mulher por agir daquela maneira. A presença daquela criatura me incomoda tanto quanto a cidade de interior incomoda a Evangeline, e devo dizer que isso não é pouco.

Contenho a vontade de provocar a queda de um vaso em sua cabeça, acreditando que Evangeline será capaz de fazer isso por mim – certo, certo, não acho que a garota atiraria um vaso na cabeça da prima no sentido literal da palavra, mas tinha comigo que a provocação de Diana desencadearia uma discussão entre as duas (mais uma) e que aquele espírito pobre escutaria poucas e boas da mais nova (o que com certeza machucaria mais do que qualquer vaso). Aquilo também fazia parte da rotina, afinal. Só que não foi isso o que aconteceu.

Boa tarde para você também, Diana“, cumprimentou, sorrindo. Tanto eu quanto Diana arqueamos a sobrancelha. “Vovó não guardou o almoço, viu? Tá tudo no micro-ondas esperando por você. Ah! A lasanha está deliciosa!” e assim voltou a prestar atenção no apresentador que dirigia o programa da tarde.

Espera… quê? Evangeline? Não, cara. Essa é a hora que você levanta, a encara com olhos de raiva e fala um monte!
Anda! Levanta!

Eu não sou a única que parece esperar por essa reação. “Tá pagando de boa moça agora, é?“, perguntou a outra, soltando uma risada que se desprendia do humor. “Ou espera que eu acredite na cena da neta que vem visitar os avós sem querer nada em troca?” Evangeline soltou um longo suspiro ao término do questionamento da prima, pensando por alguns segundos antes de responder. “Eu só espero conseguir assistir ao programa em paz.

Mesmo que saber sobre a vida dos atores globais não fosse do interesse de Evangeline, percebi que ela não estava inventando. Ela queria prestar atenção no programa. Ela queria evitar uma discussão desnecessária.

Ela não estava fingindo ou mentindo.
Não dessa vez.

***

Depois de dois meses, finalmente consegui postar minha parte do projeto na data certa, YAY! Adoro quando o dia 16 cai justamente no meu dia de postar aqui no Agora v4i *-* Vamos dar uma olhada nos textos das outras meninas que também participam?

Ghiovana, Ariana, Camyli, Maria Fernanda, Daniela, Lys, Thaís, Gabriela, Maíra, Brunna, Lianne, Marlana

assinatura Agora v4i

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4 comentários sobre “16 on 16: Quebra da rotina

  1. O texto ficou ótimo, Nicolle, adoro os temas desse projeto, sempre saio lendo todos hahaha
    Você tem muito talento pra escrever, amei muito a forma como conduziu a narrativa *–*
    Beijos

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