16 on 16: Conversa de corredor.

Hoje é dia 16 e isso significa uma coisa: projeto literário! O tema desse mês foi “Tive que achar alguém para passar os dias ruins” e o meu texto não ficou exatamente como eu gostaria – a inspiração, essa linda, me abandonou quando não deveria! -, mas… tá aí. Espero que gostem :3

***

TO DO LIST

Não chegar atrasada na aula


05:34. Esses eram os dizeres que piscavam no visor do relógio digital colocado em cima do criado mudo, os números em vermelho piscando de cinco em cinco segundos. O céu lá fora abandonava a coloração escura e a lua, que outrora brilhara durante toda a noite, cedia seu espaço a um sol que, segundo a previsão do tempo do dia anterior, prometia aquecer a cidade durante aquele dia 16 de setembro. Mas ainda não estava fazendo calor. Não se formos levar em consideração que uma leve brisa está tomando conta do quarto e Evangeline, despida de qualquer coberta ou edredom – estes foram jogados no chão pela própria garota, o que ela fez enquanto dormia -, está encolhida em sua cama, abraçada a um dos vários travesseiros dispostos por todo o móvel.

A pele bronzeada levemente arrepiada indica que ela não está totalmente confortável com a temperatura e as rugas em sua testa, bem como os olhos apertados, me levam a crer que o ar gelado que entra pela janela aberta não é a única que a está perturbando. Os sinais, eu sei, indicam que Evangeline está sonhando e, a julgar pela sua expressão, eu nem ao menos preciso entrar em sua mente para saber o que está lhe acontecendo naquelas horas de sono. Não depois que o fiz há algumas noites e me deparei com o mesmo roteiro em todas as vezes. Essa história está comum desde o resgate do número de Gabriel Junqueira.

Nesse momento os sonhos de Evangeline assumem a função de máquina do tempo e a estão levando ao passado, quando ela ainda era uma menina de oito anos. Frágil, sensível, insegura, medrosa, chorona. Características que permanecem em sua personalidade mesmo aos dezoito, mas que, há dez anos, eram ainda mais perceptíveis. Há dez anos Evangeline não tomava o cuidado de esconder suas fraquezas dos outros.

E era exatamente isso que ela estava fazendo no intervalo entre as aulas de matemática e português. Demonstrando. Evangeline estava sentada no chão de um corredor aparentemente vazio, as costas apoiadas nas paredes. As lágrimas escorriam livremente por suas bochechas carnudas e respirar havia se tornado uma verdadeira maratona, visto que fungar era uma das poucas coisas que a garota conseguia fazer. Uma cena digna do meu desgosto.

Em um ímpeto de sensatez, a criança dobrou os joelhos e abraçou-os, escondendo o rosto entre um e outro. Certo, Evangeline, isso impediria que os possíveis passantes a vissem chorar, mas os ecos de suas fungadas a entregariam de qualquer forma. Paola Junqueira, por exemplo, percebeu o que estava acontecendo assim que colocou os pés naquele corredor.

O sonho de Evangeline não lhe revela essa cena. Não tinha como a menina ver que Paola estava em pé há poucos passos de distância, observando-a, temerosa, sem saber se deveria seguir seu caminho até o bebedouro que ficava além de onde a menina de olhos e cabelos castanhos estava sentada ou se seria melhor dar meia volta e correr para a sala de aula. Mas eu vi a surpresa nos traços da menina que muito se assemelhava a uma boneca de porcelana. Eu estava lá, afinal, assistindo tudo. Estou com Evangeline desde que ela nasceu, oras.

Então, sim, eu pude ver a expressão de Paola e percebi sua insegurança quanto a se aproximar ou não. As duas estudavam na mesma sala desde o início daquele ano e, lembrando que aquele episódio havia se desenrolado em meados de março, não fazia tanto tempo assim. Não eram íntimas. Sequer haviam trocado mais do que “oi, tudo bem?” e “bom dia” até então, já que, ao contrário dela, Evangeline não se aproximava das pessoas com facilidade, mesmo naquela época. Mas, após hesitar por algum tempo que eu não contei, Paola seguiu na direção da colega e, instintivamente, sentou-se ao seu lado.

Evangeline não percebeu. Tanto que, quando a voz fina da Junqueira caçula ecoou no espaço por meio de um “Ei, tá tudo bem?”, Evangeline se sobressaltou e eu tenho absoluta certeza que seu coração disparou ainda mais. Foi uma cena engraçada e, sabendo que as duas não me escutariam, comecei a rir – rio mesmo hoje, anos e anos depois. Evangeline, no entanto, não só ficou desconcertada como também desatou a gaguejar um “Si-im, c-c-com certeza” que não convenceria nem mesmo uma criança bem mais nova do que elas – e não digo isso apenas porque a criatura estava desabando em lágrimas, mas porque Evangeline era, aos oito anos, incapaz de convencer alguém.

A atitude de Paola me surpreendeu. Se mais velhas as pessoas tendem a ser curiosas e intrometidas, mais novas esse tipo de atitude pode ser ainda mais perceptível, justamente porque crianças, na minha visão, são mais abertas e não pensam muito antes de agir. Mas Paola não insistiu. Não fez perguntas que pudessem invadir a privacidade de Evangeline e, mesmo sem conhecer a garota, apenas afagou as suas costas e permaneceu sentada ao seu lado. Eu realmente queria saber o que se passou na cabeça daquele menina naquele momento e continuo com essa vontade até hoje – é verdade que ela proferiu algumas opiniões a Evangeline anos mais tarde, mas dessa vez quem não ficou convencida fui eu. Só que isso é assunto pra outra história.

Meus pais vão se separar”, Evangeline contou após alguns minutos de silêncio, limpando os olhos com as costas das mãos. Paola arqueou as sobrancelhas, encarando-a – surpresa pela confissão repentina? Surpresa pelo conteúdo da confissão? Não sei -, porém não disse nada inicialmente já que Evangeline não havia parado de falar. “Eles estão brigando muito e ontem mamãe disse que não queria mais ficar com ele”, e ao invés de um ponto final, o que nós encontramos foi um soluço. Mais lágrimas viriam depois disso.

Eu também lembro de tudo o que ela contava. Lembro das brigas, lembro do quanto eu mesma fiquei estupefata com o tom que Heitor usou com a esposa durante as discussões – jamais imaginei que um homem tão passivo fosse capaz de adotar aquela postura hostil. Ele nunca a usou comigo, mesmo quando teve a oportunidade – e da angústia que Evangeline sentiu quando acordava durante a noite com os gritos de raiva da mãe, as exclamações do pai e com a certeza de que chegaria a hora que eles não viveriam mais sob o mesmo teto. Foram tempos difíceis para aquela pirralha.

Meus pais também brigam bastante e uma vez eles também disseram que iam se separar. Mamãe até conversou comigo e com meu irmão sobre isso, dizendo que nada mudaria o que eles sentiam por nós dois. Mas eles nunca se separaram”, Paola contou, sem saber, coitadinha, o que lhe aconteceria dentro de pouco tempo. “Brigas de casais são mais normais do que a gente imagina. Bah, quem entende os adultos?”, questionou, revirando os olhos. Ainda afagava as costas da colega. Lembro que quando a escutei fazer esse questionamento, pensei: Quem entende as pessoas, Paola? “Mas se isso acontecer mesmo, Evangeline, pode ser até legal. Você terá duas casas, dois quartos, duas TVs!” Até hoje eu não sei se essas palavras realmente são boas como consolo, mas fizeram Evangeline sorrir. “Sei lá, tente não se preocupar com isso.

O que está acontecendo aqui?” A inspetora – que nem mesmo eu sei de que buraco aquela megera saiu – perguntou, encarando as duas alunas por cima de seus óculos, os braços cruzados. “Vocês vão se atrasar para a aula, senhoritas. Sugiro que se levantem nesse instante e sigam para a sala de aula, ou serei obrigada a tomar providências.” Seu tom de voz era severo e o olhar assustado das meninas mostraram que sua ordem surtira o efeito desejado. Elas ficaram com medo.

O que me indigna até hoje é saber que uma mulher como aquela sequer deu atenção para o estado que Evangeline estava. O nariz da menina estava vermelho, seus lábios inchados e os olhos e as bochechas completamente lavados. Sinais de que, oi, aquela aluna estava chorando! Ela sequer perguntou se estava tudo bem, se ela precisava de alguma coisa – mesmo que essa “alguma coisa” significasse “psicólogo” – e olha que aquela escola nem chegava aos pés do lugar no qual eu fui parar um dia! Aquilo me indignou. Por essas e outras eu não senti absolutamente nada pelo que aconteceu àquela mulher, anos mais tarde.

Tudo o que Evangeline e Paola souberam fazer, no entanto, fora levantar e seguir à passos largos e apressados na direção da sala de aula, o sinal ressoando pouco após se acomodarem em suas carteiras. Naquele dia as meninas ainda sentavam em cantos separados – as duas nas primeiras fileiras, mas enquanto Paola ficava ao lado da janela, Evangeline ficava logo em frente à porta. No dia seguinte, porém, Paola trocaria de lugar com Sandro e ficaria atrás da mais nova amiga e aquela conversa que tiveram no corredor havia sido apenas a primeira de muitas.

O sonho acabava ali, mas Evangeline não abriu os olhos. Talvez outro tenha começado, já que suas linhas de expressão ficaram menos perceptíveis e provavelmente se tratava de algo muito bom, visto que nem mesmo o bip incessante do despertador fez com que ela despertasse. Eram 06:00 e pelo andar da carruagem, alguém se atrasaria para chegar a aula.

***

Agora, as meninas!

Gabriela, Lianne, Sara, Deyse, Ghiovana, Marlana, Jeniffer, Jade, Ariana, Maria Fernanda, Camyli, Mari, Thaís, Camila.

P.S.: Esse texto tá ligado ao primeiro. Caso queira ler, basta clicar aqui. :3

Nos vemos no próximo post, beleza?

Nikki.

Anúncios

8 comentários sobre “16 on 16: Conversa de corredor.

  1. Estou achando muito interessante seus textos! E você está mexendo com minha curiosidade em relação a quem é esse narrador! Céus garota, isso não se faz hahaha Gostando muito, quero continuação!
    cemiterio-dos-livros.tumblr.com

    1. Nhooooom <33 Paola eu já não sei porque ela ainda não se revelou totalmente, mas Evangeline super corresponderia seu abraço, Deyse!

  2. Essa história está ficando cada vez mais interessante! Estou gostando muito dessa sua forma de escrever, como alguém de fora observando tudo.. Parabéns!! Algo me diz que Evangeline e Paola ainda terão muitas histórias pra contar! *-*

Comente <3

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s